HISTORIA .

V ENECULT- Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura


28 a 30 de maio de 2008


Faculdade de Comunicação/UFBa, Salvador-Bahia-Brasil.


O REGGAE, DA JAMAICA AO MARANHÃO: PRESENÇA E


EVOLUÇÃO


Maria do Carmo Lima Morias¹


Patrícia Carla Viana de Araujo²


¹ Pós-graduanda em Jornalismo Cultural pela Universidade Federal do Maranhão - UFMA


madocalimo@hotmail.com


² Pós-graduanda em Jornalismo Cultural pela Universidade Federal do Maranhão - UFMA


patyviana2005@hotmail.com


RESUMO


A hibridização cultural é um dos elementos estruturantes das sociedades contemporâneas.


Resultado de encontros e desencontros múltiplos, onde as mais diversas práticas culturais interagem entre


si., tornando-se uma categoria chave para a compreensão da produção das identidades e dos sistemas


simbólicos. Como essas práticas não são estáticas, novas interações são redefinidas e interferem nas


identidades regionais


O objetivo deste trabalho é fazer uma descrição do reggae em São Luis/Maranhão tomando como


base o reggae na Jamaica. Através de uma perspectiva sócio-histórica, prospectaremos os elementos que


contribuíram para sua evolução e consolidação na cidade de São Luís, bem como o processo de


construção no imaginário social, mediante situaçõesconcretas registradas e legitimadas na mídia local.


Palavras Chaves: Reggae, Identidade, Cultura e Mídia Local.


INTRODUÇÃO


Embora o reggae seja de origem jamaicana, São Luis o incorporou dentro de suas práticas festivas


e sua programação cultural, influenciando as relações de interação já existentes; e como conseqüência


criou-se um novo mercado de bens e trocas simbólicas. Desde sua chegada a Ilha de São Luís há 30 anos,


criou-se na memória coletiva local uma imagem de semelhança entre as duas ilhas, o que faz muitas


pessoas acreditarem que realmente São Luis é a Jamaica Brasileira.


Essa alteração não se restringe apenas ao imaginário, bem como na ordem social, o que reflete no


comportamento das pessoas, na cadeia de relações desse “bem” dito cultural. Seu processo de apreensão


alterou sua forma, podendo ser analisado por váriosaspectos. Por obedecer a regras e códigos próprios


estabelecidos ao longo desse processo, o público local alterou a lógica de produção, recepção e consumo


desse produto.


Os elementos originais que constituem o objeto propiciam transformações diversas. As


potencialidades desse ritmo são suficientes para interferir nos processos culturais locais, mas é lenta para


atribuir uma representação de identidade cultural local, apesar da exploração dos principais veículos de


comunicação. Faz-se urgente, portanto, conhecer os processos que interferem nessa apreensão, bem como


entender o que levou os ludoviscenses a apropriar-se desse estilo musical e o considerarem parte de sua


identidade.


Nesse aspecto, acreditamos serem os processos de globalização um dos principais elementos


causadores de mudanças de valores e sentidos atribuídos às culturas nacionais, até então isoladas, quepor


um motivo ou outro ultrapassam as fronteiras e adquirem inúmeras representações no mundo. É um


fenômeno visto na sociedade contemporânea que provoca mudanças na identidade cultural pela intensa


interação com que se dão essas relações. Todas essas mudanças em torno das identidades têm gerado uma


crise de representação, não havendo mais padrões limitados para representar a realidade, tudo é válido,


resultando em uma crise ética e estética.


Nesse contexto, surgem as diferentes formatações doreggae no mundo, articuladas às


circunstancias e espaço, desestruturando sua estrutura originais, com abertura para novas articulações,


possibilitando uma nova reconstrução, resultando emum produto fragmentado inserido em um outro


contexto social. Daí o interesse em pesquisar as formas de apropriações locais do reggae e como esse


gênero musical passa a ser incorporado e como reorganiza as práticas culturais da cidade.


JAMAICA - ORIGEM E IDENTIDADE


O reggae saiu de uma ilha de proporções medianas e ganhou visibilidade e representações na


cultura mundial. É um gênero musical de origem jamaicana resultante da mistura de ritmos africanos,


indígenas e europeus misturados desde a colonizaçãoda Jamaica. Descoberta por Cristovão Colombo em


1494, esta ficou sob o domínio espanhol por mais deum século, até 1660 sendo mais tarde tomada por


piratas ingleses. Na condição de colônia, recebeu uma grande quantidade de negros da África Ocidental


para suprir a carência de mão-de-obra extinta com aintensa política de exploração e extermínio do sistema


colonial para realização de atividades compulsória no Novo Mundo.


Lá o tráfico de escravos foi abolido mais cedo e em1962 conseguiu libertar-se oficialmente do


domínio inglês. Atualmente é uma famosa ilha caribenha, sua forma de governo é a monarquia


constitucional, e o chefe de Estado é um monarca, aRainha Isabel II. Mesmo assim as tradições desses


povos foram mantidas, como a prática religiosa, dança e a música, elementos emblemáticos desse povo e


que estão intimamente ligados dentro da cultura jamaicana, representados no Rastafarismo e no Reggae


Music, duas expressões subjetivas que marcam a identidade desse local.


Passando por diversos estilos, desde o seu surgimento, o reggae pôde experimentar novas


perspectivas musicais e instrumentais trazidas pelos colonizadores da região e adaptá-las à sua realidade


social e histórica. Assim sendo, suas letras são compostas numa língua mista, o crioulo jamaicano,


resultado de encontros múltiplos que se deram ao longo da história do lugar, uma marca de hibridismo


cultural.


Situada no miolo da América Central, a ilha podia captar, via rádio, sons que eram produzidos por


negros de algumas cidades norte-americanas, como Nova Orleans e Miami. Na década de 50, o Rhythm


and Bluesestava no auge, e em Kingston (atual capital da Jamaica) e Spanish, esse era o som que mais


agradava os jamaicanos, estes se identificaram bastante com esse gênero musical e misturaram-no aos


sons de tambores produzidos em rituais religiosos.


A influência desse ritmo foi de grande importânciapara a produção do primeiro estilo musical, o


Mento, uma espécie de musica folclórica com características próprias de seu povo, que o misturaram aos


sons dos rituais rastafari e ao vocal do blues;assim os tambores afros ganharam o radio e foi o início de


um movimento de revalorização da identidade cultural da ilha. Num outro momento, quando a ilha já era


independente, surge o Ska, com uma batida mais acelerada que a anterior e caracteriza principalmente, um


movimento de afirmação identitária.


Acompanhando a evolução do reggae surge o Rock Steady, que semelhante ao rock in roll,


inclusive no nome, tinha uma forte influência das grandes bandas americanas. Por fim, o Roots,


considerada a era de ouro do reggae e de grande importância, por vários motivos, dentro desse processo


evolutivo.


O reggae Roots, chamado também de reggae de raiz, é um estilo queretrata todas as lástimas


trazidas com a modernização da Jamaica, como o desemprego, a falta de moradia, as condições de


trabalho precárias , não correspondendo com as expectativas da população após a independência. Atrelado


à filosofia rastafari, manifestava um sentimento derebeldia e descontentamento, o qual foi sendo


destacado nas letras das músicas Bob Marley, um dosprincipais ícones da musica jamaicana, foi o elo


entre o reggae e a filosofia rasta, projetando o movimento para além das fronteiras territoriais. Além


destas características, o Rootsé marcado primordialmente por sua fidelidade rítmica ao reggae jamaicano


tradicional.


Até hoje o reggae evolui e acompanha as tendênciasda música moderna, mas mesmo assim as


tradições desse povo ainda são mantidas, traduzindouma visão de mundo e sentimentos coletivos de seu


povo transmitidos ao longo desses anos, de geração para geração, sem comprometer sua identidade. A


evolução musical na Jamaica é muito rápida e atualmente o reggae tocado e produzido lá ainda é o


Dancehall, uma versão eletrônica do reggae aliado à tecnologia digital, acompanhando as tendências das


grandes indústrias norte-americanas que ainda controlam o mercado e detêm esse poder dentro do cenário


musical mundial.


Assim constituiu-se o reggae, da heterogeneidade depovos, com uma característica própria


desenvolvida ao longo dos anos e das gerações que otransmitiram e agiram dentro das suas possibilidades


de forma a não comprometer a identidade de seu povo. Carregado de sentidos e valores, o reggae para os


jamaicanos não se restringe apenas a um gênero musical, a lazer ou entretenimento, vai muito além; é uma


condição de vida que lhes proporcionam um sentimento de patriotismo, de luta e denuncia. A força de sua


gente, assim como a de toda a África, é de uma abrangência imensurável que se transporta para todo


mundo. O reggae é a materialização dessa força e, aparentemente, desperta em todos os povos o mesmo


sentimento como ele foi idealizado.


Enquanto o reggae consolidava-se na Jamaica, este se projetava internacionalmente,


acompanhando a esteira das grandes bandas de rock como Beatles, Rolling Stones, dentre outras, o reggae


passou por inúmeras adaptações até chegar aos padrões comerciais exigidos pelos produtores e pela


indústria. O padrão ideal era caracterizado pelo uso mais destacado da guitarra, dos teclados e dos


instrumentos de sopro; além de colocar à frente da banda um representante, o vocalista. Bob Marley ficou


conhecido como uma figura emblemática do reggae, por estar á frente de sua a banda, The Wallers. A


intenção dos grandes produtores que estavam por trás das primeiras bandas de reggae era atingir um


grande número de pessoas, que já tinham sua base nopúblico do rock. Obedecendo a um dos princípios


básicos e fundamentais da indústria cultural, que éa padronização e a transformação de uma cultura em


produto, o reggae conseguiu atingir um gosto médio,senão o mundo todo, e adquiriu diversas formas e


resignificações.


Ao articularem o reggae com a indústria, o que deu visibilidade a ele e, principalmente à uma


cultura terceiro mundista considerada “isolada” do resto do mundo em que na sua maioria são pessoas


negras; aquilo que era local passou a ser global deforma que os agentes culturais puderam compartilhar


sua cultura e seus talentos criativos, articulando suas posições às circunstancias que lhes foram dadas.


Portanto podemos dizer que o reggae hoje trás consigo todos os elementos característicos do mundo


industrial moderno. Para Renato Ortiz (1981 p.87) “essas relações de mediação são necessárias no


processo de construção das identidades nacionais, pois são os mediadores quem deslocam as


manifestações culturais de sua esfera particular e as articulam a uma totalidade que as transcendem”.


Nessa perspectiva industrial, o reggae que antes era apenas uma arte anônima, transformou-se em


um produto que ganhou visibilidade no mundo e atingiu um grande número de pessoas, embora despidas


de suas características individuais como etnia, classe, religião e até mesmo de país, tratados como umtodo


homogêneo. Uma vez que foi retirado de seu lugar deorigem, perdeu sua razão de ser e esvaziou-se de


sentido; tanto aqueles que o reproduzem, quanto o próprio público que com ele entra em contato, deixa de


estar vinculados existencialmente àquilo que de fato significa.


REFLEXOS DO REGGAE EM TERRAS BRASILEIRAS “JAMAICA BRASILEIRA”


A popularidade do reggae expandiu-se bastante desde o seu surgimento e foi revivido em vários


países, inclusive no Brasil. Aproximadamente na década de 60 foi identificado algo próximo ao estilo,


uma tradução do Ska na época da Jovem Guarda com Renato e seus Blue Caps e Wanderléia; nos anos 80


o grupo Os Paralamas do Sucesso começa a divulgar mais o ritmo, e na década de 90 surgem outras


bandas. O reggae é tocado hoje, de norte a sul do país, e cada lugar se identificou de forma diferenciada,


como é o caso de São Luis, que há mais de 30 anos acolheu o ritmo jamaicano.


Para o Maranhão, o reggae trouxe uma semelhança rítmica com uma das maiores e mais antiga


expressões da cultura popular local, o Bumba-meu-Boi, uma síntese das culturas africanas, indígenas e


européias. É difícil e contraditório definir exatamente quando e como esse ritmo veio parar no maranhão e


o porquê de tamanha identificação. Segundo Ademar Danilo, atual apresentador do programa de televisão


África Brasil Caribe, a origem do reggae no Maranhão é de uma origem não comprovada, não há


ninguém, não há nenhuma pesquisa que indique a datada chegada do reggae no estado; são vários fatores


que contribuíram para que ele chegasse até aqui e pra São Luis ser conhecida como Jamaica Brasileira.


Para Zé Orlando


1


, existe uma forte semelhança entre São Luis e a Jamaica; a grande maioria da


população é negra, clima, modo de vida, além do reggae. Os mais antigos, principalmente os da zona


rural, afirmam ter conhecido o reggae através dos sons captados, via ondas de rádio, no final da década de


60; enquanto outros tiveram contato com a música através de LPs trazidos em navios que aportavam nos


portos da capital em meados da década de 70.


Essa variação de acesso em relação ao objeto investigado, até hoje não comprovada, é importante,


na medida em que contribui para a reflexão sobre que elementos de ligação há entre São Luis e a Jamaica


e quais foram (são) os processos e estratégias utilizadas, ao longo desses anos, para fazer de São Luis a


“Jamaica Brasileira”. Zé Orlando diz que a versão de que o reggae teria vindo para o Maranhão através


das ondas de rádio coincide com a verdadeira história do reggae na Jamaica, o que para ele é um mito


difuso para fazer com que as pessoas acreditem que São Luis é realmente a “Jamaica Brasileira”.


Segundo Ademar Danilo


2


, no estado já havia uma predominância de ritmos caribenhos nas regiões


do Pará/Maranhão como: a lambada, o merengue, a salsa, o bolero, entre outros; ritmos esses que eram


tocados em clubes que tem o perfil dos clubes de reggae de hoje e veiculados nas chamadas radiolas, um


aparelho de som gigantesco. O fato de os ritmos caribenhos terem guarida no Maranhão confirma a


aceitação do ritmo jamaicano, embora os freqüentadores dos clubes não soubessem de que ritmo se


tratava. Aos poucos o reggae foi sendo introduzido na programação musical dessas casas, através dos


discotecários, muito conhecido nesse cenário como especialista em músicas desse gênero. Esses discos,


raros, eram trazidos de fora do estado ou do exterior a preços altíssimos, o que dificultava o acesso do


público com o ritmo sendo possível ouvi-lo indo apenas nos clubes.


Os clubes e as radiolas tiveram um papel fundamental no processo de evolução e consolidação do


reggae no estado, pois dinamizaram e popularizaram este gênero musical, principalmente na capital; em


contrapartida, centralizou-o nas mãos de poucos. Com isso, um mercado cultural foi estruturado em torno


1


Integrante da banda Tribo de Jah


2


Radialista, apresentador de programa de reggae na tv e produtor cultural


deste produto, com regras e leis próprias, aonde osempresários (donos de clubes e de radiolas) viviam


disputando público, visibilidade, exclusividade, e principalmente o lucro.Essa disputa por mercado e pelo


capital, fez muitos donos de radiola ficarem ricos e poderosos, e ao perceberem que o produto dava lucro


investiram cada vez mais nas radiolas; quem tivessemais tecnologia e músicas exclusivas, conseguia


atrair mais público. É um campo de jogo de forças, de confrontos, de tensão, em que seus mediadores


negociam e interage o tempo todo


Nenhum campo é estático, todos são dinâmicos e se modificam, à medida que os seus agentes


interagem, manipulando o objeto de acordo como ele lhes é apresentado (BOURDIEU, 1997,


p.57)


Todo esse processo de troca se dá no campo da mediação e nas relações estabelecidas entre seus


mediadores; esses campos são identificados a partirdesses atores sociais, que mantinha (ou matem) uma


hegemonia, embora momentânea, nesses espaços sociais, cujos interesses econômicos prevaleciam. Hoje,


eles transitam em todas as esferas da sociedade e deslocam-se, com facilidade, para outros campos,


inclusive projetando-se na política, como Pinto da Itamaraty, empresário nesse ramo e atualmente


vereador, e Ademar Danilo que foi eleito vereador em 1992.


Todas as estratégias de mercado e as interferências acima citadas resultaram numa mudança na


sua lógica de produção, circulação e consumo, que não é a mesma da Jamaica. Quando isso ocorre com


um produto cultural, seu formato original é a alterado, e o mesmo produto pode receber diversos sentidos


e mudar seu valor de troca, adquirindo parte desse processo e perdendo um pouco de sua identidade. A


forma como o reggae foi apreendido e como ele é manipulado aqui no Maranhão, difere-se dos outros


lugares do Brasil e ele é diferentemente assumido conforme varie o local.


A mídia ocupa um lugar estratégico neste processo eestá diretamente ligada não somente à


distribuição do produto, mas também à sua produção.Contrariando a lógica da cultura midiática, o reggae


circulou primeiramente em ambientes próprios, os clubes, para depois ganhar as rádios. Somente na


década de 80, surge o primeiro programa de rádio especializado em reggae. Estes tiveram um papel


fundamental para a consolidação e democratização doritmo jamaicano em São Luis. Embora houvesse


um mercado estruturado e fechado, que era o dos donos de radiola, era possível ouvir e reproduzir


algumas músicas, o que quebrou um pouco a hegemoniadesses empresários.


Outro aspecto que merece ser destacado aqui é que,os apresentadores que estavam à frente do


programa, Ademar Danilo e Fauzy Beydoun


3


, tinham a preocupação em traduzir as letras das músicas, já


que estas eram em língua inglesa, para que a população soubesse mais da essência do reggae e eles


esclareciam um pouco do movimento na Jamaica. Hoje,a maioria dos programas de rádio pertence aos


“capitalizados” donos de radiola, para divulgar suas radiolas e clubes de reggae, além dos programas de


televisão. Apesar de a mídia local operar na relação de produção, divulgação e consumo, não são


suficientes por que a influencia dos empresários ainda é muito forte, o que descaracteriza o produto na sua


origem. As relações que se dão entre a mídia e o reggae é um jogo bem mais complexo porque se trata de


uma série de negociações, complexas e multifacetadas, entre a cultura local e a cultura midiática,


propondo que há uma enorme variação de acessos. Zé Orlando comenta sobre a forte influência dos donos


de radiola na cena reggae de São Luis: “Acho que osradialistas deveriam se preocupar em dar mais


informações aos consumidores (público/regueiros) e não somente ficar fazendo propagandas de radiolas


ao longo dos programas”.


A população tem uma preferência por um estilo específico do reggae, dentre os que foram citados


em outro momento, o roots, que além de coincidir com o momento em que ele estava surgindo na Jamaica


e com sua aparição no Maranhão, foi o estilo que o consagrou no mundo. Para os maranhenses este estilo


de reggae é a verdadeira expressão do movimento reggae, com mensagens de cunho político, econômico e


social atrelado à filosofia Rastae, principalmente por manter uma fidelidade rítmica ao tradicional reggae


jamaicano. Não há quem se reporte ao reggae roots sem associá-lo á Bob Marley, um dos principais, se


não o principal, ícone da música jamaicana. Em resposta ao som mecânico, radiola, e seguindo o estilo


reggae roots, em meados da década de 90 começam a surgir bandasnacionais na capital.


O público da radiola era consistente e exigente, sóqueriam saber de reggaeinternacional, mesmo


sem entender o que as letras diziam; com isso, as primeiras bandas maranhenses enfrentaram muitas


dificuldades em apresentar-se em shows e principalmente produzir discos, não era interessante para os


donos de radiolas investir ou trabalhar em conjuntocom essas bandas e dividir o lucro, quando ele toca


simplesmente um disco, muitas vezes tocado em mais de uma festa ao mesmo tempo, e ganha o lucro


sozinho; essa prática dura há mais de 35 anos, e oslucros são ainda exorbitantes. A primeira banda de


reggae a formar-se foi a Tribo de Jah, hoje conhecida internacionalmente como uma banda genuinamente


maranhense e identificados como uma banda de reggaeda Jamaica Brasileira. Martin Barbero(1997,


p.108) destaca que “a indústria cultural assimila acultura local, devolvendo sob outras formas, o quejá


existe no mercado “


Ao perceber que havia um gosto pelo ritmo jamaicano, às bandas locais começaram a se organizar,


3


Integrante da Tribo de Jah e ex-radialista de programa de reggae em radio local


e consequentemente a indústria. Mas esse processo ainda é lento, no que diz respeito ao envolvimento das


grandes indústrias, e muitas bandas ainda continuamno anonimato, visto que os investimentos são


poucos, o preconceito ainda perdura e a disputa de público e mercado é constante; o que não era de se


esperar, já que é São Luis é a “Jamaica Brasileira”. Muitas dessas bandas são totalmente independentes,


com muito material e pouco recurso financeiro, comoa Banda Guetos, que tem mais de 15 anos de


formação, muito conhecida no circuito reggae local,mas que até hoje, só teve 1 (um ) CD gravado.


Na música, pode ser esclarecedor pensar em tradução cultural; descreve-se como um conjunto


de princípios de tradução tanto quanto (ou mais) umconjunto de dispositivos de imitação.


Também tem uma grande vantagem de enfatizar o trabalho que tem que ser feito por


indivíduos ou grupos para domesticar o que é estrangeiro, em outras palavras, as estratégias e


as táticas empregadas. (BURKE, 2003, p.59)


A legitimação dessa cultura fez com que a forma de julgamento do reggae fosse variada, e seu


sentido interpretado de diversas maneiras. Como o fator de identificação percorreu outra via, a periférica,


muitos viam o reggae como algo prejudicial ao bem estar social e moral.


A alegação era freqüente de que os espaços onde elecirculava eram locais de concentração de


marginais e desocupados, além da suspeita de porte de armas e consumo de drogas. Por ser uma música


produzida por negros e haver uma identificação com os negros de são Luis, a elite dominante da época,


bem como as autoridades e a imprensa, associavam o reggae à violência, bloqueando com atitudes, muitas


vezes violentas, a proliferação do ritmo na capital.


Outro aspecto que contribuía para esses comportamentos, era a localização e estrutura dos clubes, a


maior parte deles era na periferia da cidade e em condições precárias, mas que para seus freqüentadores


era o único espaço disponível de lazer que condiziacom a sua condição de negro e pobre. Era um espaço


de identificação racial, social e econômica


O reggae é a raça que faz... É o negro que faz. Algumas pessoas dizem que


quem freqüenta o reggae é só ladrão, é só marginal.Mas na verdade não é só isso, o reggae é


uma música que envolve a gente... A gente vai para curtir, é um espaço de paz, de você


dançar, tomar sua cerveja e ficar numa boa... Muitos que não entendem o reggae ficam


falando besteira, mas a gente não pode contribuir com a besteira deles. O reggae é uma


música do negro. (ZÉ MARIO, 1995, p.107)


A forma como uma cultura é apropriada está diretamente ligada ao julgamento e ao gosto, e estes


são resignificados na produção das trocas simbólicas. Todo mercado simbólico é um campo marcado pelo


mediador, inteiro produtor de sentido que interage num mesmo ambiente social; são eles que julgam,


consagram e institucionalizam os bens “ditos” culturais. Ao legitimar um produto, estes interferem no


imaginário social, de forma que a sociedade se reconhece nele e por ele designa-se uma identidade.


A mídia é um exemplo de mediação que interfere no imaginário social e articula os processos de


construção de uma identidade. Indignado com a idéiaque circulava nos meios de comunicação de massa,


principalmente a rádio, de São Luis estar sendo definida como Jamaica Brasileira, Ubirajara Rayol


publicou um artigo no Jornal da Tarde que provocou grande polêmica:


No momento em que os meios de comunicação maranhenses passam a cognominar à nossa


São Luis não mais de “Atenas Brasileira”, mas de Jamaica Brasileira”, urge que se repudie


tamanho e tão deplorável abuso (...) Não se conhecena história da Jamaica, feitos nos campos


da letras, artes e ciências. (Jornal da Tarde, 01/06/91)


Extremamente preconceituoso este artigo revela a resistência às manifestações culturais produzidas


pela população negra, resultante da herança das relações de escravidão deixadas desde a colonização. As


formas de representação do imaginário social estão relacionadas às referencias históricas, em constante


construção, organizando uma nova ordem social e ordenando novos comportamentos.


Contudo, as fronteiras estabelecidas no contexto das relações socioeconômicas, que envolve o


reggae durante todo o seu processo de apropriação eadaptação no estado, têm sido cada vez menores. A


ruptura de fronteiras entre a cultura de elite e periférica, a quebra do grande divisor, é comum nas


sociedades contemporâneas.


O reggae, devido seu caráter híbrido e espontâneo,permite a interação dos agentes sociais,


independente de sua classe social, raça ou religião, em um mesmo ambiente social. Um exemplo é o


Espaço Cultural África, situado numa área nobre da cidade que mantém todos os elementos pertinentes ao


reggae resignificado em São Luis e retrata o tipo de público que circula nesse circuito. Como o próprio


dono, Ademar Danilo, descreve: “é freqüentado, na grande maioria, por jovens universitários acima dos


25 anos, classificados socialmente como público esclarecido e qualificado, que preferem um tipo


específico do reggae, o Roots”. A programação da casa é totalmente voltada para o ritmo reggae, mas,


eventualmente, são inseridos em sua programação outros estilos como a salsa, o merengue, e


manifestações culturais popularmente maranhenses como o bumba-meu-boi e o tambor de crioula.


Dentro desse cenário de hibridismo cultural, onde a tradição (cultura popular) e a tradução (reggae


maranhense) interagem em um só ambiente, relações sociais estas características de uma sociedade


contemporânea, aonde os interesses comerciais, lazer e entretenimento, ou simplesmente de identificação,


interagem constantemente.


Hoje, o Reggae está articulado a movimentos estudantis, culturais, sociais e a alguns órgãos do


estado, como a Prefeitura de São Luis que realiza um projeto através da Secretaria Municipal de Turismo -


SETUR, que tem por objetivo promovê-lo como produtoturístico, por meio do fortalecimento de sua


identidade, valorização dos costumes locais, da articulação e integração dos seguimentos, visando à


satisfação dos visitantes, comunidade e agentes dosseguimentos do Reggae em São Luis. Ainda que não


prevaleça um caráter de organização política, como há em outras capitais brasileiras que se apropriaram


do ritmo, o reggae é importante para que se possa pensar em uma mobilização da população negra de São


Luis atrelado ao seu papel dentro dessa sociedade.


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DOC. ON LINE:


http// www. Reggae e Cultura Popular Maranhense: sincretismo e identidade. 



videos ; itamara show, leandro ramos


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